Enviado em 18/09/2025 - 16:26h, atualizada em 20/04/2026 - 16:37h
Categoria: Biodiversidade
A floresta que protege as lavouras: predadores microscópicos da Reserva Espinita
Diversidade de ácaros predadores mostra o papel da floresta como aliada da produção agrícola sustentável.

Área de cultivo de cacau em transição com a floresta na Reserva Espinita. A proximidade entre lavouras e Mata Atlântica favorece a presença de predadores naturais, que contribuem para o controle de pragas.
Quando pensamos na importância das florestas tropicais, geralmente lembramos da proteção da biodiversidade, da água e do clima. Mas existe um benefício menos conhecido e igualmente importante: as florestas podem ajudar a proteger as lavouras contra pragas agrícolas.

Essa relação começa com organismos quase invisíveis. Entre eles estão os ácaros predadores da família Phytoseiidae, pequenos aracnídeos microscópicos que vivem sobre as folhas das plantas e se alimentam de outros ácaros e pequenos artrópodes que podem atacar cultivos.

Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Estadual Paulista (UNESP), com colaboração da Universidade Federal do Sul da Bahia e do Instituto Federal de Roraima, investigou a diversidade desses predadores na Reserva Espinita, um fragmento de Mata Atlântica localizado no município de Igrapiúna, Baixo Sul da Bahia.

Área de estudo na Reserva Espinita e espécies de plantas nativas utilizadas na pesquisa.
A diversidade de hospedeiros vegetais — como Inga vera, Euterpe edulis e Simarouba amara — influencia diretamente a composição dos ácaros predadores, reforçando o papel da floresta na manutenção de inimigos naturais de pragas.


Durante as coletas realizadas em julho de 2023, os pesquisadores analisaram ácaros presentes nas folhas de diversas espécies de plantas da floresta. Os resultados revelaram uma comunidade surpreendentemente diversa: centenas de indivíduos e mais de vinte espécies de ácaros predadores foram registrados no estudo.

Entre elas, a espécie Neoseiulus sp. foi a mais abundante, e pode inclusive representar uma espécie ainda não descrita pela ciência. Outra espécie, Amblyseius euterpes, mostrou comportamento generalista, ocorrendo em diferentes espécies de plantas.

Os pesquisadores também investigaram como essas comunidades variam dentro da floresta, comparando a borda do fragmento com o interior da mata. Os resultados mostraram que a composição das espécies de ácaros depende principalmente das plantas onde vivem, e que diferentes espécies vegetais podem sustentar comunidades distintas de predadores.

Essa relação entre plantas e ácaros tem implicações importantes. Quanto maior a diversidade de plantas em um fragmento florestal, maior tende a ser a diversidade de predadores microscópicos que vivem sobre elas.

Entre as plantas estudadas, a árvore Inga vera destacou-se como um importante suporte para diversas espécies de ácaros predadores.

Esse tipo de resultado ajuda a compreender por que áreas naturais próximas a paisagens agrícolas podem desempenhar um papel fundamental no chamado controle biológico conservativo — quando a própria biodiversidade ajuda a manter sob controle populações de organismos que poderiam se tornar pragas.

Em outras palavras, fragmentos de Mata Atlântica podem funcionar como reservatórios naturais de predadores, que eventualmente colonizam ambientes agrícolas e contribuem para reduzir surtos de pragas.

Os resultados do estudo foram apresentados no 18° Simpósio de Controle (SINCOBIOL) realizado em Gramado-RS entre 14 a 18 de setembro de 2025.

Embora quase invisíveis, esses pequenos predadores fazem parte de uma complexa rede ecológica que sustenta o equilíbrio dos ecossistemas.

Na Reserva Espinita, cada folha da floresta pode abrigar um pequeno universo de interações microscópicas — um mundo onde predadores minúsculos ajudam silenciosamente a manter o equilíbrio da natureza.

E, de forma indireta, também ajudam a proteger as lavouras que existem além da floresta.
Enviado em 18/09/2025 - 16:26h, atualizada em 20/04/2026 - 16:37h
Categoria: Biodiversidade