A trajetória familiar que transformou uma fazenda em uma reserva dedicada à conservação da natureza, à restauração florestal e à proteção da biodiversidade.
A então Fazenda Espinita foi adquirida em 1973 por Jazom Araújo de Oliveira, técnico agrícola alagoano que havia chegado à Bahia em 1971 para trabalhar com cana-de-açúcar em Camamu. Nos primeiros anos, a produção agrícola incluía mandioca, banana-da-terra, pimenta-do-reino e cravo-da-índia. Depois, veio o cacau, e em 1980, as primeiras vacas de leite.
Os filhos de Jazom e Ceres Zenaide Maia de Oliveira cresceram imersos na vida da fazenda: ouvindo discos de Dalgas Frisch com sons da fauna brasileira, colecionando figurinhas do Chocolate Surpresa de Luiz Cláudio Marigo, lendo livros de Eurico Santos, Mário Pio Correia e João Paulo Nogueira-Neto e aprendendo com histórias do bisavô naturalista Heretiano Zenaide, autor de obras sobre aves e plantas da Paraíba.
Em 1990, um episódio marcante mudou os rumos da família. Antonio Maia, então com 14 anos, relatou ao cartunista e ambientalista Paulo Serra o triste dia em que um caçador derrubou uma árvore para matar uma preguiça na propriedade de seu pai. Comovido, Paulo desenhou a cena em um cartum dedicado ao menino. Naquele instante, Maia teve a certeza que dedicaria sua vida à proteção das matas e animais da Espinita. Décadas depois, os dois se reencontraram, já com a Espinita reconhecida como uma Unidade de Conservação.
Ainda em 1990, a família iniciou o plantio de florestas em antigas áreas degradadas, prática que se ampliou até somar 35 hectares em restauração. Em 1991, o geneticista inglês Ian Walker trouxe para a Espinita o birdwatching — observação de aves com binóculo, guia e caderno de campo — que se tornaria uma das marcas da Reserva.
Nos anos 2000, a família encerrou a pecuária e redirecionou áreas de pastagem para restauração e agroflorestas. O processo de criação da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) começou em 2013, com apoio do Instituto Água Boa e do Ministério Público da Bahia, culminando em 17 de maio de 2016, quando a Espinita foi oficialmente reconhecida como RPPN pelo INEMA.
Em 2019, recebeu o Prêmio Rural Sustentável – Categoria Conservação, concedido pelo BID, MAPA e Governo do Reino Unido. Em 2024, passou a integrar a PRESERVA, associação das RPPNs da Bahia e Sergipe, e iniciou articulações para criar corredores ecológicos na região.
Origem do Nome:
Espinita é um bolero mexicano da década de 1940, interpretado pelo trio Los Panchos. O termo significa “pequeno espinho” e remete às desventuras de um amor não correspondido. Quando foi adquirida em 1973, a fazenda já carregava esse nome.